Dourados, 09 de Abril de 2026

O fim melancólico da estação ferroviária da cidade de Maracaju
O fim melancólico da estação ferroviária da cidade de Maracaju
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Para quem desejar conhecer um pouco mais sobre a ferrovia, sugiro o livro “As curvas do trem e os meandros do poder – o nascimento da estrada de ferro Noroeste do Brasil”, do professor Paulo Roberto Cimó Queiroz.

Elecir Ribeiro Arce (*) –

Muitos moradores de Maracaju nunca ouviram o apito do trem anunciando sua chegada ou partida da estação ferroviária localizada na vila Juquita naquela cidade. Isso porque já faz alguns anos que aquela linha ferroviária foi desativada por completo, levando o prédio da estação as ruínas. Aquele espaço de vida e trabalho acabou. As casas dos operários foram destruídas ou descaracterizadas pelos novos donos. Os trilhos e dormentes foram arrancados ou se perderam no tempo em sua quase totalidade. As máquinas e os trabalhadores da ferrovia não existem mais, nem sinais. Vida ainda existe por lá, mas nada a ver com o que foi a pujante ferrovia Noroeste do Brasil (NOB), naquela cidade.

Antes de escrever o que vi recentemente por lá, vale ressaltar o que foi, e a época em que foi construída aquela ferrovia. O projeto intencional de construir uma ferrovia ligando a então província de São Paulo à Mato Grosso vem desde o Brasil império, na década de 1850. Afinal naquela época já se pensava em garantir fronteiras, povoar e desenvolver a parte oeste do país. Naquele momento tirar o projeto do papel não era uma tarefa fácil, afinal era um empreendimento que envolvia volumosos recursos, que o governo imperial não dispunha e a iniciativa privada não estava disposta a colocar dinheiro num projeto caro, que não oferecia lucros alvissareiros a curto e médio prazos.

A construção da ferrovia em si, só foi possível no início do século XX, mais precisamente no ano de 1904, com a constituição da Companhia de Estradas de Ferro Noroeste do Brasil. A linha férrea ligaria Bauru (SP) a Corumbá (MS), com um ramal ligando Campo Grande a Ponta Porã, num total aproximado de 1600 quilômetros de extensão. Vale ressaltar que esse não era o percurso previsto nos projetos pretendidos pelas autoridades do Brasil imperial. E mesmo após a efetivação do projeto e início da obra a ferrovia sofreu alteração em seu percurso, de Bauru/Cuiabá, alterou-se para Bauru/Corumbá. Importante destacar que a ferrovia rompeu dificuldades de integração de uma parte oeste e chegou com seus trilhos até a fronteira de dois importantes vizinhos: Bolívia e Paraguai.

A construção da ferrovia demorou vários anos, mas à medida que os trechos eram concluídos o trem de ferro chegava, favorecendo oportunidades e fomentando os lugarejos distantes dos centros mais populosos. Conheci aquela ferrovia quando era bem criança, no início da década de 1960. Naquela época não existia linhas de ônibus regulares que ligavam Maracaju a outras cidades, como Campo Grande, Ponta Porã, Aquidauana, Corumbá ou São Paulo. A alternativa era o trem. Logo, o trem era o principal meio de transporte de passageiros e cargas da fronteira do Paraguai com Campo Grande, região do Pantanal, Três Lagoas, São Paulo e vice-versa.

Quanta vida existia ali; quantas famílias dependiam daquele empreendimento; quanto a economia regional funcionava em sintonia com os trilhos da Noroeste. Quantas vezes vi a garotada dos funcionários da empresa fazer festa na estação, quando chegava o trem da cooperativa com as compras do mês efetuada pelas famílias ferroviárias. Toda semana passava por lá, na oficina os mecânicos trabalhavam consertando as máquinas e vagões. Quando o trem chegava na estação lá estavam eles vistoriando as máquinas antes da partida, todos devidamente uniformizados conforme a função desempenhada por cada um.

As famílias que viviam no entorno da ferrovia, direta ou indiretamente, dependiam da Noroeste. Os chacareiros, por exemplo, no período respectivo das safras frutíferas vendiam laranja, manga, guavira e jabuticaba para os passageiros do trem. Era o momento de ganhar uma grana extra e muito bem-vinda na sustentabilidade das famílias dos chacareiros. Eu e meus irmãos vendemos muita laranja e manga na estação ferroviária, sabíamos o horário certinho da chegada do trem de passageiros, tanto de Campo Grande, quanto de Ponta Porã. Às vezes o trem de passageiros atrasava um pouco, mas o atraso não era normal. Quase sempre chegava e partia no horário determinado.

A safra da laranja, entre os meses de março e maio, era a melhor época para ganhar um dinheirinho extra para suprir nossas necessidades. Vendíamos a fruta para os passageiros do trem, para as famílias dos ferroviários e para os paraguaios que vinham até a estação carregar os vagões com toras de madeira para serem beneficiadas no Estado de São Paulo. Maracaju era um importante entreposto de distribuição de mercadorias para outras regiões. O embarque de madeira em toras era um serviço pesado, que exigia muita prática e força muscular. Os paraguaios dominavam a atividade arrastando aquelas enormes toras na alavanca e cabo de aço. Ficavam vários dias acampados no local e eram nossos fregueses, pois a laranja fazia parte do cardápio alimentar daqueles trabalhadores.

Mas não era só fruta que era comercializada no curto espaço, cerca de dez minutos, que o trem parara na estação. Lembro muito bem da dona Francisca, esposa do senhor Florêncio, irmão do senhor Osvaldo, pai do ator Davi Cardoso, todos os dias ela ia até a estação vender seus deliciosos bolos e chipas para os passageiros e transeuntes que acompanhavam a chegada do trem. Fazia chuva ou fazia sol dona Francisca estava na estação satisfazendo os passageiros com suas deliciosas guloseimas. Como se percebe a estação ferroviária representava uma fonte econômica para muita gente. Era um local movimentado, alegre, muito agradável e cheio de vida.

Recentemente estive na cidade e fui visitar a estação, aliás o que sobrou dela, quase nada mais existe no local. O prédio abandonado, todo depredado. Acabou o movimento, não existe mais trem. Deu pena ver a velha estação transformada num local habitado por dependentes químicos. A estação alegre do passado virou um local triste, sem perspectiva. Fiquei por alguns minutos no local que servia de embarque e desembarque de passageiros, relembrei o passado e percebi que a prosperidade ficou distante, a velha estação foi invadida por uma profunda tristeza.

A Ferrovia Noroeste faz parte da história de Maracaju e a velha estação merece um olhar mais cuidadoso da população local e, especialmente, das autoridades constituídas. Um município próspero, pujante no agronegócio, detentor de uma população ativa e trabalhadora como é Maracaju não pode deixar a memória histórica desaparecer nos escombros da velha estação. Fica aí uma sugestão para sociedade organizada maracajuense discutir uma saída digna com um bom projeto para a recuperação do prédio da estação ferroviária. Para quem desejar conhecer um pouco mais sobre a ferrovia, sugiro o livro “As curvas do trem e os meandros do poder – o nascimento da estrada de ferro Noroeste do Brasil”, do professor Paulo Roberto Cimó Queiroz.

(*) Professor aposentado da Rede Estadual de Ensino de MS, especialista em História do Brasil pela UFMS.

Fonte: Folha de Dourados

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